Olá, Pessoal!
Estamos às vésperas do período de avaliação do I bimestre. Por isso, resolvi postar alguns testes e simulados on line para ajudá-los nos estudos.
Espero que aproveitem o feriadão, mas não esqueçam de revisar as matérias escolares.
Bom feriado!!! Bons estudos!!!!
Professora Márcia Oliveira
"A mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original." Albert Einstein
segunda-feira, 30 de março de 2015
sábado, 28 de março de 2015
Paixão de Cristo - Escola Estadual Nossa Senhora da Penha
terça-feira, 24 de março de 2015
quinta-feira, 19 de março de 2015
Análise da obra Canaã, de Graça Aranha
Literatura Brasileira
Pré-Modernismo
Tendo sido lançado no mesmo ano de Os Sertões, de Euclides da Cunha (1902), poderíamos dizer que Canaã é o primeiro romance ideológico brasileiro em que se discute o destino histórico do Brasil. Ao mesmo tempo, Canaã representou uma ponte entre as correntes filosóficas e estéticas do final do século XIX (Realismo, Naturalismo, Simbolismo) e a revolução modernista da segunda década do século XX.
O pólo central de Canaã são os debates entre dois colonos alemães que se estabelecem no Espírito Santo: Milkau e Lentz.
O personagem Milkau
Milkau representa
o otimismo, a confiança no futuro do Brasil e na força regeneradora do amor
universal. A maneira de Tolstói, Milkau prega a integração harmônica de
todos os povos na natureza-mãe, revelando um evolucionismo humanitário. É um
humanista saudoso do gênio livre e individualista da Alemanha. Por isso deplora
o desmoronamento da tradição da cidade brasileira invadida por colônias
estrangeiras e sonha com a “ligação do homem ao homem” e com a realização da
liberdade.
Milkau não se limita à defesa de ideias abstratas. Seu humanismo desdobra-se em ação quando passa a proteger Maria, jovem colona, expulsa pelos patrões quando estes a sabem grávida, vindo a dar à luz em trágica situação.
Após salvar Maria, libertando-a do cárcere onde
estava por ter sido acusada de matar o próprio filho (na verdade Maria tem o
filho devorado por uma vara de porcos), Milkau foge, juntamente com Maria, em
direção a outros horizontes, numa “corrida no Infinito”, em busca da luminosa
Canaã, a Terra Prometida, “onde as feras não fossem homens”, onde a vida não
seja uma competição de ódios mas uma conquista de amor.
Visto desta maneira, Canaã é o poema das raças novas, da miscigenação das raças, de onde nascerá a perfeita harmonia universal.
O personagem Lentz
Lentz é um
adepto das teorias racistas. Para ele, os brasileiros, por serem mestiços,
estão condenados à dominação por parte de raças “superiores”. Lentz profetiza a
vitória dos arianos, enérgicos e dominadores, sobre o brasileiro fraco e
indolente. Suas idéias deixam entrever a filosofia de Nietzsche e o
evolucionismo de Darwin.
“A lei do amor” x “A lei da força”
Assim, podemos ver que Milkau e Lentz representam
duas ideologias postas em debate. E o contraste entre o universalismo (Milkau)
e o racismo (Lentz), entre a “lei do amor” (Milkau) e a “lei da força” (Lentz).
Justamente neste ponto, Canaã adquire maior importância para a
Literatura Brasileira, pois o romance de confrontação ideológica era inédito
entre nós, e antecipou a tomada de consciência dos modernistas.
Na verdade, Graça Aranha, com Canaã, apresenta
tópicos que serão desenvolvidos mais tarde em A Estética da Vida, de
1921. O brasileiro terá de vencer o Terror Cósmico, superar o lírico individual
e atingir a poesia do cosmos unitário, numa identificação de consciência e
universo.
Graça Aranha toca, portanto, no ponto vital das
discussões do início do século XX: a campanha por uma estética nacional
assimilada na consciência universal, Este era o debate do dia-a-dia: a
nacionalidade brasileira, vista e analisada profundamente, opondo-se ao
ufanismo e ao patriotismo superficial.
A estrutura romanesca e a linguagem
Muitos têm afirmado que a extrema preocupação de
Graça Aranha em discutir ideias (Canaã é, na verdade, um romance de
ideias) prejudicou a composição ficcional (literária) propriamente dita. José
Guilherme Merquior acusa a má intervenção do pensamento, da tese, na matéria
narrada. A dimensão realista do livro é incompatível com a sua dimensão
explicativa. Daí resultaria uma certa deficiência estrutural da obra. O ardente
desejo de explicar o “objetivismo dinâmico” leva o autor a fazer “filosofia
ficcionalizada” ou “ficção filosofante”. Formalmente, isto se revela na
intervenção teórica do autor a cada momento do romance, através de digressões
que interrompem o universo ficcional. Daí o esvaziamento das personagens (são praticamente
ideias, e não pessoas), a desvalorização do enredo que serve apenas de pretexto
para análises sociais ou psicológicas do Brasil. Mesmo o drama de Maria, a
personagem trágica do romance, é entremeado de longas cenas que demonstram a
lubricidade e a venalidade dos magistrados locais. Já no final, quando Milkau
busca o juiz de direito para tentar uma solução para o processo em que Maria
está envolvida, os dois acabam discutindo sobre a etnia brasileira,
aproveitando Graça Aranha para tecer argumentos sobre o mulatismo.
Entretanto, se levado pela preocupação em
discutir o Brasil, Graça Aranha não estruturou personagens ou enredo
convincentes, algumas cenas de violência e instinto servem de relevo e
interesse pela linguagem impressionista de que se revestem, assim como as
descrições ricas da natureza brasileira. São cenas tipicamente naturalistas: o
enterro do velho caçador, cujo cadáver é disputado aos coveiros por cães
furiosos e urubus famintos; o rito bárbaro dos magiares, que fecundam a terra
com o sangue de um cavalo açoitado até a morte; o pavor de Maria na estalagem
em que se abriga, dormindo juntamente com uma velha criada que esconde pedaços
de carne sob o colchão e, à noite, os ratos passeiam sobre o corpo; enfim o
nascimento do filho de Maria em plena mata, entre porcos que acabam por devorar
a criança diante do horror da mãe. Evidentemente, estas cenas vão além do
realismo, mas não chegam a um naturalismo “científico” de um Zola. Este
naturalismo é sensível ao nível da linguagem narrativa, tipicamente
impressionista. De fato, natureza, ambiente, homens e coisas são apreendidos
num enfoque impressionista, usando o narrador uma retórica declamatória com
farta adjetivação, na qual dois ou três adjetivos ligam-se ao mesmo
substantivo, ou até os substantivos adjetivam. A descrição de Maria adormecida
na mata, coberta pelos pirilampos, representa bem o impressionismo, filtrado de
simbolismo. De fato, formas, cores, aspectos luminosos confundem-se numa
descrição emocional do momento, através de períodos breves, geralmente no
imperfeito do indicativo, sugerindo a ideia de continuidade.
Assim, Canaã revela-se uma obra
sincrética. Do Realismo encontramos traços na fixação da paisagem humana da
colônia, em prosa quase documental, com a simplicidade da vida laboriosa dos
imigrantes ou as doenças da burocracia judiciária. Do Simbolismo encontramos a
preocupação metafísica, a alegoria retórica, a associação das sensações do
momento que faz com que o naturismo ultrapasse a simples observação da
realidade. Note-se ainda a presença de mitos folclóricos indígenas e europeus,
que ajudam no’ desenvolvimento da ideia de Milkau e na exaltação do Brasil.
Créditos para http://www.passeiweb.com/estudos/livros/canaa
Resumo e análise da obra Recordações do escrivão Isaías Caminha, de Lima Barreto
Pré-Modernismo
Resumo
e análise da obra Recordações do escrivão Isaías Caminha, de Lima Barreto
O primeiro romance de Lima Barreto é uma forte crítica à sociedade hipócrita e preconceituosa e a imprensa (que ele mesmo fez parte). Recordações do Escrivão Isaías Caminha é um livro pungente em todos os sentidos, de leitura obrigatória.
Resumo do Livro:
O
jovem Isaías Caminha, menino do interior, tomou gosto pelos estudos através da
desigualdade de nível mental entre o seu pai, um ilustrado vigário, e sua mãe.
Admirava o pai que lhe contava histórias sobre grandes homens. Esforçou-se
muito nas instruções e pouco brincava. Tinha ambições e um dia finalmente
decide ir para o Rio fazer-se doutor: "Ah! Seria doutor! Resgataria o
pecado original do meu nascimento humilde, amaciaria o suplício premente,
cruciante e omnímodo de minha cor... Nas dobras do pergaminho da carta, traria
presa a consideração de toda a gente. Seguro do respeito à minha majestade de
homem, andaria com ela mais firme pela vida em fora.
Não
titubearia, não hesitaria, livremente poderia falar, dizer bem alto os
pensamentos que se estorciam no meu cérebro. [...] Quantas prerrogativas,
quantos direitos especiais, quantos privilégios, esse título dava! Podia ter
dois e mais empregos apesar da Constituição; teria direito à prisão especial e
não precisava saber nada. Bastava o diploma. Pus-me a considerar que isso devia
ser antigo... Newton, César, Platão e Miguel Ângelo deviam ter sido
doutores!" Aconselha-se com o tio Valentim. Este visita o Coronel Belmiro,
chefe eleitoral local, que redige uma carta recomendando Isaías para o Doutor
Castro, deputado.
Segue
paro o Rio com algum dinheiro e esta carta. Instala-se no Hotel Jenikalé, na
Praça da República e conhece o Senhor Laje da Silva - diz ser padeiro e é incrivelmente
afável com todos, em especial com os jornalistas. Através dele conhece o doutor
Ivã Gregoróvitch Rostóloff, jornalista de O Globo, romeno, sentia-se sem pátria
e falava 10 línguas.
Vai
assim conhecendo o Rio de Janeiro. Decide procurar o Deputado Castro para
conseguir seu emprego e poder cursar Medicina. Dirige-se a Câmera: "subi
pensando no ofício de legislar que ia ver exercer pela primeira vez, em plena
Câmera dos Senhores Deputados - augustos e digníssimos representantes da Nação
Brasileira. Não foi sem espanto que descobri em mim um grande respeito por esse
alto e venerável ofício [...] Foi com grande surpresa que não senti naquele
doutor Castro, quanto certa vez estive junto dele, nada que denunciasse tão
poderosa faculdade. Vi-o durante uma hora olhar tudo sem interesse e só houve
um movimento vivo e próprio, profundo e diferencial, na sua pessoa, quando
passou por perto uma fornida rapariga de grandes ancas, ofuscante
sensualidade."
Tenta
falar com o doutor Castro mas não consegue. Quando finalmente consegue,
visitando a sua residência particular (casa da amante) este o recebe friamente
dizendo que era muito difícil arranjar empregos e mando o procurar no outro
dia. Caminha depois descobre que o deputado estava de viajem para o mesmo dia e
é tomado por um acesso de raiva: Patife! Patife! A minha indignação veio
encontrar os palestradores no máximo de entusiasmo. O meu ódio, brotando
naquele meio de satisfação, ganhou mais força [...] Gente miserável que dá
sanção aos deputados, que os respeita e prestigia! Porque não lhes examinam as
ações, o que fazem e para que servem? Se o fizessem... Ah! Se o fizessem! Com o
dinheiro no fim, sem emprego, recebe uma intimação para ir à delegacia.
O
hotel havia sido roubado e prestava-se depoimentos. Ao ouvir as palavras do
Capitão Viveiros: "E o caso do Jenikalé? Já apareceu o tal
"mulatinho"?" Isaías reflete: Não tenho pejo em confessar hoje
que quando me ouvi tratado assim, as lágrimas me vieram aos olhos. Eu saíra do
colégio, vivera sempre num ambiente artificial de consideração, de respeito, de
atenções comigo [...] Hoje, agora, depois não sei de quantos pontapés destes e
outros mais brutais, sou outro, insensível e cínico, mais forte talvez; aos
meus olhos, porém, muito diminuído de mim próprio, do meu primitivo ideal [...]
Entretanto, isso tudo é uma questão de semântica: amanhã, dentro de um século,
não terá mais significação injuriosa. Essa reflexão, porém, não me confortava
naquele tempo, porque sentia na baixeza de tratamento, todo o desconhecimento
das minhas qualidades, o julgamento anterior da minha personalidade que não
queriam ouvir, sentir e examinar.
Levado
a presença do delegado, começa o interrogatório: "Qual é a sua
profissão?" "Estudante." "Estudante?!" "Sim,
senhor, estudante, repeti com firmeza." "Qual estudante, qual
nada!" A sua surpresa deixara-me atônito. Que havia nisso de
extraordinário, de impossível? Se havia tanta gente besta e bronca que o era,
porque não o podia seu eu? Donde lhe vinha a admiração duvidosa? Quis-lhe dar
uma resposta mas as interrogações a mim mesmo me enleavam. Ele por sua vez,
tomou o meu embaraço como prova de que mentia." Com ar de escarninho
perguntou: "Então você é estudante?". Dessa vez tinha-o compreendido,
cheio de ódio, cheio de um santo ódio que nunca mais vi chegar em mim. Era mais
uma variante daquelas tolas humilhações que eu já sofrera; era o sentimento
geral da minha inferioridade, decretada a priori, que eu adivinhei na sua
pergunta.
O
delegado continua o interrogatório até arrebatar chamando Caminha de malandro e
gatuno, que, sentindo num segundo todas as injustiças que vinha sofrendo chama
o delegado de imbecil. Foi para o xadrez. Passa pouco mais de 3 horas na cela e
é chamado ao delegado. Este se mostra amável, tratando-o por "meu filho",
dando-lhe conselhos.
Caminha
sai da delegacia e decide mudar-se também do hotel. Passa a procurar emprego
mas na primeira negação percebe que devido a sua cor seria muito difícil se
ajustar na vida. Passa dias perambulando pelas ruas do Rio, passando fome,
vendendo o que tinha para comer algo, até avistar Rostóloff que o convida para
dar um passada na redação de O Globo - onde passa a trabalhar como contínuo.
Nesta
altura a narrativa sofre um corte. A ação de Caminha é posta de lado para
descrever minunciosamente os funcionamentos da imprensa carioca. Todas as
características dos grandes jornalistas, desde o diretor de O Globo, Ricardo
Loberant aos demais redatores e jornalistas são explicitadas de maneira cruel e
mordaz.
O
diretor é retratado como ditador, temido por todos, com apetite de mulheres e
prazer, visando somente ao aumento das vendas do seu jornal. Somos apresentados
então a inúmeros jornalistas como Aires d'Avila, redator-chefe, Leporace,
secretário, Adelermo Caxias, Oliveira, Menezes, Gregoróvitch. A tônica de O
Globo era a crítica acerba ao governo e seus "desmandos", Loberant se
considerava o moralizador da República. Isaías se admira com a falta de
conhecimento e dificuldade para escrever desses homens que nas ruas eram
tratados como semi-deuses e defensores do povo.
Por
este tempo, Caminha havia perdido suas grandes ambições e acostumava-se com o
trabalho de contínuo. É notável o que se diz do crítico literário Floc
(Frederico Lourenço do Couto) e do gramático Lobo - os dois mais altos ápices
da intelectualidade do Globo. Lobo era defensor do purismo, de um código
tirânico, de uma língua sagrada. Acaba num hospício, sem falar, com medo que o
falar errado o tenha impregnado e tapando os ouvidos para não ouvir. Floc
"confundia arte, literatura, pensamento com distrações de salão; não lhes
sentia o grande fundo natural, o que pode haver de grandioso na função da Arte.
Para ele, arte era recitar versos nas salas, reqüestar atrizes e pintar umas
aquarelas lambidas, falsamente melancólicas. [...] as suas regras estéticas
eram as suas relações com o autor, as recomendações recebidas, os títulos
universitários, o nascimento e a condição social."
Certa
noite, volta entusiasmado de uma apresentação de música e vai escrever a
crônica para o dia seguinte. Após algum tempo, o paginador o apressa. Ele manda
esperar. Floc tenta escrever o que viu e ouvira, mas seu poder criativo é nulo,
sua capacidade é fraca. Ele se desespera. O que escreve rasga. Após novo pedido
do paginador, ele se levanta, dirige-se a um compartimento próximo e se suicida
com um tiro na cabeça.
Estando
a redação praticamente vazia, o redator de plantão chama Isaías e pede para que
ele se dirija para o local onde Ricardo Loberant se encontra e jurasse que
nunca diria o que viu. Isaías vai ao local indicado e surpreende Loberant e
Aires d'Avila numa sessão de orgia e os chama apressadamente para o jornal.
Loberant passa então a olhar com mais atenção a Isaías e o promove até
repórter. Divide confidências e farras.
Isaías
ganha a proteção e dinheiro de Ricardo Loberant. Depois da euforia inicial,
Isaías se ressente. Lembrava-me de que deixara toda a minha vida ao acaso e que
a não pusera ao estudo e ao trabalho com a força de que era capaz. Sentia-me
repelente, repelente de fraqueza, de falta de decisão e mais amolecido agora
com o álcool e com os prazeres... Sentia-me parasita, adulando o diretor para
obter dinheiro...
Em
dado momento do livro, Lima Barreto escreve: "Não é o seu valor literário
que me preocupa; é a sua utilidade para o fim que almejo." Valor literário
entenda-se como o "valor" vigente naquela época, do escrever bonito e
empolado, gramaticalmente correto, em busca de palavras desconhecidas em
empoerados dicionários, em busca da forma. Literatura era tudo, menos
comunicação e arte.
Créditos para http://www.coladaweb.com
Resumo e análise da obra "Negrinha", de Monteiro Lobato
Pré-Modernismo
Resumo e análise da obra
Negrinha, de Monteiro Lobato
Em
1920, Monteiro Lobato (1882-1948) publicava o conto Negrinha no livro do mesmo
nome. Embora distante três décadas da proclamação da República e da extinção da
escravidão, o Brasil ainda vivia efeitos da transição da Monarquia para a
República e do trabalho escravo para o trabalho livre.
O
país, que até então tinha sua estrutura social baseada no meio rural e a
estrutura econômica dependente da mão de obra escrava, passava por inúmeras transformações.
A indústria começava a se desenvolver e o processo de urbanização avançava. O
Brasil modernizava-se, mas o preconceito racial contra aqueles que tinham a
pele negra ou parda, antigos escravos e seus descendentes, permanecia o mesmo.
Sensível observador, Lobato denunciou, em momentos
de suas obras, a desigualdade entre brancos e negros, herança do escravismo. O
conto é um desses momentos. Com personagens que representam a população
brasileira das décadas iniciais do século XX, Lobato expõe a mentalidade
escravocrata que ainda persiste tempos depois da abolição.
Negrinha é narrativa em terceira pessoa, impregnada
de uma carga emocional muito forte. Sem dúvida alguma é conto invejável:
"Negrinha era uma pobre órfã de sete anos. Preta? Não; fusca, mulatinha
escura, de cabelos ruços e olhos assustados. Nascera na senzala, de mãe
escrava, e seus primeiros anos vivera-os pelos cantos escuros da cozinha, sobre
velha esteira e trapos imundos. Sempre escondida, que a patroa não gostava de
crianças."
D. Inácia era viúva sem filhos e não suportava
choro de crianças. Se Negrinha, bebezinho, chorava nos braços da mãe, a mulher
gritava: "Quem é a peste que está chorando aí?" A mãe, desesperada,
abafava o choro do bebê, e afastando-se com ela para os fundos da casa,
torcia-lhe beliscões desesperados. O choro não era sem razão: era fome, era
frio: "Assim cresceu Negrinha magra, atrofiada, com os olhos eternamente
assustados. Órfã aos quatro anos, por ali ficou feito gato sem dono, levada a
pontapés. Não compreendia a ideia dos grandes.
Batiam-lhe sempre, por ação ou omissão. A mesma
coisa, o mesmo ato, a mesma palavra, provocava ora risadas, ora castigos.
Aprendeu a andar, mas quase não andava. Com pretexto de que às soltas reinaria
no quintal, estragando as plantas, a boa senhora punha-a na sala, ao pé de si,
num desvão da porta. - Sentadinha aí e bico, hein?" Ela ficava imóvel, a
coitadinha. Seu único divertimento era ver o cuco sair do relógio, de hora em
hora.
Façamos uma comparação entre o tratamento dado à criança no
conto Negrinha e os princípios 3º e 7º do Estatuto
da Criança e do Adolescente: Lei nº 8069, de 13 de julho de 1990: 7º
Princípio - [...] A criança terá
ampla oportunidade para brincar e divertir-se, visando os propósitos mesmos da
sua educação [...] 3º Princípio - Toda criança
tem direito a um nome e a uma nacionalidade.
Ensinaram Negrinha a fazer crochê e lá ficava ela
espichando trancinhas sem fim... Nunca tivera uma palavra sequer de carinho e
os apelidos que lhe davam eram os mais diversos: pestinha, diabo, coruja,
barata descascada, bruxa, pata choca, pinto gorado, mosca morta, sujeira,
bisca, trapo, cachorrinha, coisa ruim, lixo. Foi chamada bubônica, por causa da
peste que grassava... "O corpo de Negrinha era tatuado de sinais, cicatrizes,
vergões. Batiam nele todos os dias, houvesse ou não houvesse motivo. Sua pobre
carne exercia para os cascudos, cocres e beliscões a mesma atração que o ímã
exerce para o aço. Mãos em cujos nós de dedos comichasse um cocre, era mão que
se descarregaria dos fluidos em sua cabeça. De passagem. Coisa de rir e ver a
careta..."
D. Inácia era má demais e apesar da Abolição já ter
sido proclamada, conservava em casa Negrinha para aliviar-se com "uma boa
roda de cocres bem fincados!..." Uma criada furtou um pedaço de carne ao
prato de Negrinha e a menina xingou-a com os mesmos nomes com os quais a
xingavam todos os dias. Sabendo do caso, D. Inácia tomou providências: mandou
cozinhar um ovo e, tirando-o da água fervente, colocou-o na boca da menina. Não
bastasse isso, amordaçou-a com as mãos, o urro abafado da menina saindo pelo
nariz... O padre chegava naquele instante e D. Inácia fala com ele sobre o
quanto cansa ser caridosa...
Em um certo dezembro, vieram passar as férias na
fazenda duas sobrinhas de D. Inácia: lindas, rechonchudas, louras,
"criadas em ninho de plumas." E negrinha viu-as irromperem pela sala,
saltitantes e felizes, viu também Inácia sorrir quando as via brincar. Negrinha
arregalava os olhos: havia um cavalinho de pau, uma boneca loura, de louça.
Interrogada se nunca havia visto uma boneca, a menina disse que não... e pôde,
então, pegar aquele serzinho angelical : "E muito sem jeito, como quem
pega o Senhor Menino, sorria para ela e para as meninas, com assustados
relanços d'olhos para a porta. Fora de si, literalmente..." Teve medo
quando viu a patroa, mas D. Inácia, diante da surpresa das meninas que mal
acreditavam que Negrinha nunca tivesse visto uma boneca, deixou-a em paz,
permitiu que ela brincasse também no jardim.
Negrinha tomou consciência do mundo e da alegria,
deixara de ser uma coisa humana, vibrava e sentia. Mas se foram as meninas , a
boneca também se foi e a casa caiu na mesmice de sempre. Sabedora do que tinha
sido a vida, a alma desabrochada, Negrinha caiu em tristeza profunda e morreu,
assim, de repente: "Morreu na esteirinha rota, abandonada de todos, como
um gato sem dono. Jamais, entretanto, ninguém morreu com maior beleza. O
delírio rodeou-a de bonecas, todas louras, de olhos azuis. E de anjos..."
No final da narrativa, o narrador nos alerta:
"E de Negrinha ficaram no mundo apenas duas impressões. Uma cômica, na
memória das meninas ricas. - "Lembras-te daquela bobinha da titia, que
nunca vira boneca?" Outra de saudade, no nó dos dedos de dona Inácia: -
"Como era boa para um cocre!..."
É interessante considerar aqui algumas coisas: em
primeiro lugar o tema da caridade azeda e má, que cria infortúnio para os dela
protegidos, um dos temas recorrentes de Monteiro Lobato; o segundo aspecto que
poderia ser observado é o fenômeno da epifania, a revelação que,
inesperadamente, atinge os seres, mostrando-lhes o mundo e seu esplendor. A
partir daí, tais criaturas sucumbem, tal qual Negrinha o fez. Ter estado anos a
fio a desconhecer o riso e a graça da existência, sentada ao pé da patroa má,
das criaturas perversas, nos cantos da cozinha ou da sala, deram a Negrinha a
condição de bicho-gente que suportava beliscões e palavrórios, mas a partir do
instante em que a boneca aparece, sua vida muda. É a epifania que se realiza,
mostrando-lhe o mundo do riso e das brincadeiras infantis das quais Negrinha
poderia fazer parte, se não houvesse a perversidade das criaturas. É aí que
adoece e morre, preferindo ausentar-se do mundo a continuar seus dias sem
esperança.
Créditos para http://www.coladaweb.com
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