Literatura Brasileira
Análise da obra “Urupês”, de Monteiro Lobato
O
livro de contos Urupês mostra o choque entre o atraso da vida
interiorana e a tendência ao progresso evidenciada nas grandes cidades. Alguns
dos ingredientes utilizados no relato das histórias são: humor, mistério,
suspense e, eventualmente, terror. Destaca-se ainda o registro da linguagem
coloquial nas falas dos personagens. As ações dos contos de Urupês se
passam em ambientes rurais, mas têm como pano de fundo um país que se urbaniza.
Em toda a sua obra e nas ações que desempenhou como editor, Lobato buscou
desenvolver um projeto civilizatório, de superação do atraso brasileiro, mas
sem deixar de lado as tradições da cultura rural.
O conto que dá nome ao livro “Urupês” é
o mais famoso de todos. Nele, o escritor desanca uma crítica das mais ferozes
que já se fez sobre qualquer tipo nacional. O alvo de seu ataque é o caboclo.
Derrubando uma tradição cara, inaugurada por José de Alencar, que apontava como
a mestiçagem do índio com o branco como geradora de uma nação forte, Lobato crê
no contrário. Sua teoria institui a tese do caboclismo, ou seja, a mistura de
raças gera um tipo fraco, indolente, preguiçoso, passivo. Sua religião
manifesta-se por meio das mais primitivas formas de superstição e magia. Sua
medicina é mais rala ainda. Sua política é inexistente, já que vota sem
consciência, conduzido pelo maioral das terras em que mora. Seu mobiliário é o
mais escasso possível, havendo, no máximo, apenas um banquinho (de três pernas,
o que poupa o trabalho de nivelamento) para as visitas. Não tem sequer senso
estético, coisa que até o homem das cavernas possuía. E quanto à produção,
dedica-se apenas a colher o que a natureza oferece. É, portanto, considerado o
grande culpado pelos problemas econômicos brasileiros e o estereótipo do tipo
atrasado, que emperra o desenvolvimento nacional. O título associa a figura do
caipira a um fungo que cresce junto a troncos de árvore.
Outros contos presentes na obra “Urupês”,
de Monteiro Lobato
Os Faroleiros – O
narrador, em meio a um bate-papo, propõe-se a contar uma história
surpreendente. Relata que, seduzido pelo ar solitário e isolado de um farol,
consegue realizar seu sonho passando uns dias nesse local. É quando conhece
duas figuras misteriosas que não se conversam: Gerebita e Cabrea. O primeiro
defende a idéia, insistentemente confessada para o narrador, de que o segundo
está louco. Pergunta então se seria crime se defender de um ataque de um maluco
matando-o. É uma premonição, além de deixar nas entrelinhas que o que está para
ocorrer tinha sido premeditado. Pouco depois, os dois mergulham num duelo
sangrento, em que Gerebita consegue matar o seu oponente com dentadas na
jugular. Quando o narrador abandona o farol, massacrado por experiências tão
carregadas, toma conhecimento dos motivos que levaram a essa tragédia. Gerebita
fora casado com uma mulher chamada Maria Rita, que o trocou por Cabrea, que
também é trocado por outro homem. Tempos depois o destino fez com que os dois
fossem nomeados para trabalhar no mesmo farol, passando a estabelecer uma
convivência de tensão surda.
Não deixe de notar que a narrativa várias vezes se
abre para que haja comentários dos ouvintes com o enunciador. É uma maneira de
o texto não ficar pesado, cansativo. Além disso, deve-se observar as técnicas
expressionistas (o exagero que beira o grotesco) e naturalistas (preferência
pelos aspectos escabrosos do comportamento humano). Finalmente, não se deve
perder de vista que este conto foge ao padrão de Monteiro Lobato, já que não é
regionalista. Passa-se no litoral, ou seja, bem longe do seu conhecido Vale do
Paraíba.
O Engraçado Arrependido - Trata-se da história de Pontes, um típico piadista, que
consegue arrancar risos nos atos mais simples. Até que um dia resolve ser
sério, desejo que não consegue realizar, pois sempre imaginam que é mais uma
peça que está pregando. Tenciona, pois, arranjar um cargo no funcionalismo
público, o que só obterá se surgir uma vaga, conforme avisa seu padrinho.
Resolve, de forma maquiavélica, atacar Major Antônio, homem extremamente sério
e que sofre de um aneurisma prestes a estourar por qualquer esforço. Seu plano,
pois, é matá-lo com suas piadas e assim ficar com o seu emprego. No começo parece
difícil, devido ao caráter circunspeto do doente. Até que, depois de muitas
pesquisas sobre o gosto humorístico da vítima, consegue dar o golpe fatal.
Mergulha, a partir de então, no remorso, isolando-se de todos. Semanas depois,
recuperado, volta à ativa, mas descobre que havia perdido a vaga, pois a demora
provocada por seu sumiço forçara a nomeação de outra pessoa. O protagonista
enforca-se com uma ceroula, o que para a cidade acaba sendo visto como mais uma
piada.
Note como neste conto o psicológico acaba se
resvalando para o patológico, para o anormal, o patético, o exagerado. Observe,
também, que ainda não é aqui que se manifesta o caráter regionalista do autor.
A Colcha de Retalhos – Neste conto já se manifesta a temática que tanto consagrou o seu autor:
a crítica à decadência da zona rural. O narrador faz uma visita a Zé para
propor-lhe negócios. No entanto, este recusa, o que revela sua indolência. Esse
seu caráter é responsável pela decadência e atraso em que se encontra sua
fazenda, reforçada pelo desânimo de sua esposa e pelo caráter arredio de sua
filha, Pingo ou Maria das Dores. A única firme, forte, é uma velha, verdadeira
matriarca. Mas é por pouco tempo. Anos depois surge a notícia de que Pingo,
verdadeiro bicho do mato, havia fugido com um homem para manter uma relação
desonrosa. É a derrocada final. A mãe da moça morre, o pai mergulha mais ainda
na decadência e a matriarca já não encontra mais motivos para sua existência. O
momento mais tocante é quando ela passa a descrever para o narrador a colcha
que estava costurando durante anos, toda composta de peças de roupa que Pingo
ia usando e dispensando desde recém-nascida. O último pedaço estava reservado
para um retalho do vestido de noiva, que não chegou a existir.
Note como a decadência em que a menina mergulha é
um símbolo da decadência rural. Note também o colorido da linguagem do
contista, que retrata com fidelidade o andamento do registro oral de suas
personagens, como no trecho “Des’que caí daquela amaldiçoada ponte”, entre
tantos outros.
A Vingança da Peroba – Mais um conto que critica a decadência rural provocada pela indolência
dos fazendeiros. Há aqui uma oposição entre duas famílias, os Porunga, fortes e
de vida bem estabelecida, graças à força de vontade de suas ações, e os Nunes,
mergulhados na preguiça, desorganização e cachaça. Os dois clãs desentendem-se
por causa de uma paca, há muito desejada pelo Nunes, mas que acabou sendo
caçada por um Porunga. Movido por uma mistura de rivalidade e de inveja, Nunes
resolve finalmente investir em suas terras. Seus esforços têm fruto, gerando
uma boa colheita de milho. Resolve então construir um monjolo, pois não quer
ficar atrás do seu vizinho em desenvolvimento. Corta uma peroba imensa,
que estava na divisa das duas terras. Já há aqui motivo de desentendimento, que
arrefece quando os Porunga resolvem não brigar mais pela árvore. Semelhante ao
conto “Faroleiros”, há o emprego da premonição no meio da narrativa. Um
aleijado, que havia sido contratado por Nunes para ajudar na construção do engenho,
conta uma história de que certas árvores se vingam por terem sido cortadas. O
fato é que o monjolo é construído, mas todo torto, produzindo mais barulho do
que outra coisa, o que justifica o seu apelido: Ronqueira.
Decepcionado e
envergonhado, mergulha na cachaça. Um dia, depois que ele e seu filhinho se
embebedaram, acaba adormecendo na rede. Acorda com a gritaria das mulheres de
sua casa: o engenho havia esmagado a cabeça da criança no pilão. Irado, Nunes
destrói a machadadas a máquina assassina.
Um Suplício Moderno – Este conto apresenta o estafeta, uma espécie de carteiro, como o tipo
mais humilhado das cidades do interior. Trata-se da história de Biriba, um
pobre coitado que acaba se tornando o burro de carga de todas as pessoas de
Itaoca, que ainda cometem o desatino de reclamar dos favores que faz para elas.
Sua paciência esgota-se a ponto de pedir demissão, mas não o deixam levar
adiante seu plano. Era interesse de todos ter alguém tão submisso. É quando
resolve se vingar, traindo Fidêncio, seu superior. Recebe um pacote muito
importante para as eleições. Não o entrega, sumindo com ele por dias. É o
motivo da queda do maioral, provocando a subida do inimigo, Evandro, que não
poupa quase ninguém do antigo governo, apenas o pobre Biriba, recebido de forma
bastante atenciosa. Provavelmente desconfiando que tudo iria continuar como
antes, mudados apenas os personagens, some de Itaoca.
Meu Conto de Maupassant – Essa narrativa é norteada pelos temas do amor e da morte, comuns em Maupassant
e grandes elementos vitais de Lobato. O narrador, ao passar de trem diante de
uma árvore, um saguaraji, lembra-se de um crime ocorrido há muito. Tudo havia
começado com o aparecimento, nas redondezas daquele vegetal, do cadáver
decapitado de uma velha. Investigações são feitas e tem-se como principal
suspeito um italiano, que consegue se safar, já que não havia provas. Os anos
passaram-se e novos indícios surgem sobre o caso, levando o italiano, que havia
sumido no Brás, a ser mais uma vez conduzido para a justiça. Durante toda a
viagem de trem, o acusado não deu trabalho algum, mostrando-se por demais
submisso. Até o momento em que o veículo passa diante do saguaraji. É quando o
sujeito se atira para fora do transporte, sendo depois encontrado morto junto à
árvore. Fica a idéia, por muito tempo, de que o remorso pelo crime cometido o
havia conduzido ao suicídio, no entanto, tudo é desfeito quando o filho da
assassinada confessa o delito. Mergulha-se, pois, no clima de mistério à
Maupassant.
Pollice Verso – Narra-se
a história de Inácio, alguém que já de criança mostrava um gênio negativo ao
gostar de dissecar pássaros. Seu pai, homem dotado de linguagem empolada (o que
o tornava uma ilha em seu meio tão pobre intelectualmente) via nesse costume,
no entanto, uma tendência para a Medicina e dedica todas as suas forças em ver
seu filho seguindo essa carreira. O rapaz acaba realizando o sonho do pai, mas
torna-se um pelintra, mais preocupado em se exibir e conseguir o mais rápido
possível dinheiro para voltar aos braços da amante francesa, Yvonne, que havia
conhecido nos tempos da faculdade. Seu bilhete de loteria é conseguir cuidar de
um ricaço, Mendanha. Sua intenção não é curá-lo, pois não seria tão lucrativo
quanto a morte, que lhe possibilitaria cobrar uma quantia exorbitante. Com o
falecimento do paciente, a família recebe a conta, que acha exorbitante,
levando a questão ao tribunal. Ali, Inácio conta com o corporativismo, já que
os outros médicos (tão menosprezados pelo recém-formado) dão-lhe parecer
favorável. Viaja, pois, para Paris, enganando a todos, dizendo que tinha se
estabelecido na carreira e estava em contato com gente do alto quilate da
medicina. Estava mais era curtindo a vida.
Bucólica – Outro
conto regionalista que critica a “lassidão infinita” da zona rural. Narra-se o
atraso em que vivem Veva e seu marido, Pedro Suão. Os dois têm uma filha,
Anica, deficiente. Esse é o motivo que faz sua mãe tratar-lhe mal, desejando a
morte da pequena, já que não vê utilidade em sua existência quase paralítica. O
clímax, temperado a doses de crueldade absurda, está no relato que Libória, a
empregada do casal, faz ao narrador. A menina havia morrido de sede, pois a mãe
havia-lhe negado água, mesmo sabendo que a coitada estava com febre. O mais
trágico é que a única que atendia às vontades da enferma era a criada, que
naquele momento estava retida fora da casa graças a uma chuva torrencial que
aparecera. O funesto está no fato de a mocinha ter se arrastado até o pote
d’água, morrendo ao pé deste.
Note como o título do conto estabelece uma
gigantesca ironia com relação ao seu conteúdo.
O Mata-Pau – A
história deste conto é introduzida por meio da simbologia do mata-pau, planta
que surge discretamente numa árvore, mas que com o tempo cresce a ponto de
sugar-lhe toda a seiva. Estabelece-se, pois, relação com Elesbão e Rosa, que há
muito queriam um filho, mas não conseguiam. Até que no meio de uma noite surge
uma criança na terra deles. Adotam-na, batizando-a de Manuel Aparecido. Quando
cresce, acaba tendo um caso com a madrasta. Dominado por sentimento
malignamente possessivo, mata o padrasto e depois consegue fazer com que Rosa
passe a fazenda para o nome dele. Vende tudo e some com o dinheiro, não sem
antes trancar a ex-amante em casa, que incendeia. A sorte dela é que, além de
conseguir escapar, enlouquece, o que é-lhe um alívio, pois não tem noção da
miséria em que caiu a sua vida.
Bocatorta – Conto
carregado de elementos macabros e expressionistas. É a história de Bocatorta,
uma figura hedionda e deficiente que vive isolado no meio do mato. Sua
biografia é relatada numa reunião familiar, o que desperta a curiosidade em
vê-lo. Uma das meninas, Cristina, fica com medo, mas acaba indo, encorajada
pelo noivo. Assolada pelo medo e fragilizada pela mudança de clima que ocorre
durante a viagem, fica doente, terminando por morrer. Mais tarde, um rapaz que
gostava muito dela percebe algo estranho no cemitério e corre para pedir ajuda.
Quando todos chegam lá, descobrem Bocatorta violando o cadáver da moça, em
pleno ato de necrofilia. Acaba sendo perseguido, morrendo afogado num atoleiro
que existia lá por perto.
O Comprador de Fazendas – Quase como para aliviar a leitura depois de dois textos tão pesados,
este conto mostra-se mais jocoso. É a história de Moreira, dono da fazenda
decadente – mais uma vez esse tema! – Espiga, que não consegue ser vendida,
assim como sua filha Zilda não consegue arranjar casamento. Até que surge
Trancoso, sujeito bem afeiçoado e que se mostra interessado em comprar a propriedade.
Surpreendentemente, é o primeiro que se mostra a elogiar tudo, o que faz com
que seja bem tratado, podendo até cortejar Zilda. Parte, prometendo fechar
negócio em uma semana. Com a demora da resposta, Moreira faz pesquisas,
descobrindo que o indivíduo ganhava a vida andando de fazenda em fazenda,
sempre se mostrando interessado em comprar, o que lhe garantia casa e comida
por alguns dias. O proprietário, frustrado, fica irado. Tempos depois, Trancoso
ganha na loteria e retorna à Espiga, dessa vez para comprá-la realmente, mas é
recebido com uma surra de rabo de tatu. Vai-se, aí, o sonho de vender a fazenda
e de casar Zilda.
O Estigma – Bruno,
narrador, conta a história de seu amigo, Fausto, que se casou praticamente
interessado em dinheiro, já que o relacionamento era o que se chamava “face
noruega", ou seja, semelhante ao lado de uma vegetação em que não bate
sol. Tudo se complica quando o marido se envolve com uma prima, Laurita, muito
mais jovem do que a sua esposa. Até que a mocinha aparece morta com um tiro no
peito. Suspeita-se que tenha se suicidado e o narrador chega a pensar que de
remorso por manter um relacionamento adulterino. Tempos depois, o filho de
Fausto nasce, apresentando uma marca no peito, na mesma região que Laura havia
atingido para pôr fim a vida. Desenvolve então a teoria de que aquela criança,
quando feto, fora a única testemunha do crime cometido por sua mãe. Em outras
palavras, não houve suicídio, mas um crime passional e a criança veio ao mundo
para denunciar sua progenitora. Assim que vê esse sinal, mostra para a esposa,
dizendo: “Olha, mulher, quem te denuncia!”. Em pouco tempo está morta. O
narrador, que visita a personagem muitos anos depois, pôde ver o sinal e
descobrir que era tudo ilusão, pois não havia como a marca presente no peito da
criança provar ou mesmo denunciar qualquer coisa.
Prefácio da 2ª Edição de Urupês – Explica-se aqui o que levou Lobato a produzir seus textos sobre a
indolência do caipira. Tudo havia começado com um comentário para o jornal em
linguagem vazada de emotividade e estilo, o que despertou nos leitores um
desejo por mais textos do mesmo quilate.
Velha Praga – O artigo
que transformou um “fazendeirinho” em literato disserta, de forma indignada e
irônica, sobre o atraso do comportamento do caboclo, que praticamente põe toda
a validade do solo e da agricultura a perder por causa de seu costume bárbaro
de realizar queimadas.
Créditos para http://www.coladaweb.com
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